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Editora: 12min
A doença de Newcastle é uma infecção viral que atinge aves domésticas e silvestres. Ela não se transmite pelo consumo de carne ou de ovos e, em pessoas, pode causar no máximo uma conjuntivite leve. Ainda assim, é uma das ocorrências mais temidas pela avicultura, porque a notificação é obrigatória à Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e porque muitos países compradores reagem fechando a porta para a carne de aves do país onde o vírus apareceu.
É por aí que o assunto alcança quem nunca entrou numa granja. O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango, e a detecção do vírus em um único galpão pode travar embarques e derrubar as ações das empresas que fazem esse comércio.
Em 18 de outubro de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou um foco da doença em uma granja comercial de corte de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. No dia seguinte, o México suspendeu as compras de produtos avícolas brasileiros e as ações de frigoríficos caíram.
A doença é causada por um vírus do grupo paramixovírus aviário do sorotipo 1, o APMV-1. Nas aves infectadas, aparecem sinais respiratórios como tosse e espirros, seguidos de manifestações nervosas (tremores, paralisia de asas e pernas, pescoço torcido), diarreia, queda na produção de ovos e mortes repentinas. Segundo a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), o quadro pode provocar alta mortalidade em curtos espaços de tempo.
A transmissão mais comum é por contato direto com aves doentes, com suas fezes e secreções, ou por comida, água, equipamentos e roupas contaminados. De acordo com a OMSA, o vírus pode sobreviver semanas no ambiente, especialmente no frio, e quando chega a um grupo suscetível infecta todas as aves em dois a seis dias. Também circula por aves migratórias, o que faz com que a ocorrência seja possível em qualquer lugar do mundo.
Para as pessoas, o Ministério da Agricultura e as entidades do setor repetem o mesmo ponto: o consumo de produtos avícolas com inspeção oficial permanece seguro. Esses produtos são identificados na embalagem pelos selos de inspeção municipal (SIM), estadual (SIE) ou federal (SIF). O problema é de sanidade animal e de comércio, não de segurança do alimento.
O caso não apareceu por morte de aves, e sim por fiscalização de rotina. Segundo o ministro da Agricultura, André de Paula, as amostras foram coletadas em 21 de setembro, dentro do programa de vigilância ativa da defesa agropecuária. Em 14 de outubro, os resultados indicaram possibilidade de infecção, o que levou à suspensão das atividades da granja e a novos testes. A confirmação veio em 18 de outubro, feita pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo, reconhecido pela OMSA como referência internacional para o diagnóstico.
Nenhuma ave apresentou sinais clínicos. Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a Associação Catarinense de Avicultura e o Sindicarne-SC destacaram esse ponto: houve detecção do vírus, mas não da doença nos animais confinados.
A propriedade abriga cerca de 6 mil aves e foi interditada pelo Serviço Veterinário Oficial, com suspensão da movimentação de aves. As medidas incluem o sacrifício sanitário dos animais e a limpeza e desinfecção das instalações. Allan Alvarenga, secretário substituto de Defesa Agropecuária, afirmou que as aves da propriedade não foram destinadas ao abate comercial nem ao consumo humano e que não houve saída de animais depois da identificação do foco, o que dispensa recolhimento de produtos.
A vigilância foi estendida a Nova Itaberaba e aos municípios vizinhos de Nova Erechim, Coronel Freitas e Águas Frias, com 133 granjas na área de monitoramento. Equipes fazem visitas, avaliação clínica das aves e coleta de amostras. O governo também previu publicar portaria de emergência sanitária nesses quatro municípios.
O governo notificou a OMSA e os parceiros comerciais. A partir daí, cada comprador decide sozinho o tamanho da restrição, e as reações já começaram diferentes.
O México suspendeu a importação de carne de frango do Brasil, e a medida alcança também aves vivas e ovos férteis. A Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural mexicana afirmou que a decisão foi tomada para proteger a produção avícola nacional, já que o país é livre da doença de Newcastle.
Com a China o caminho é outro. Segundo o presidente da ABPA, Ricardo Santin, um acordo assinado com os chineses prevê que o Brasil suspenda por conta própria as exportações de carne de aves quando há uma ocorrência como essa, o chamado autoembargo. É a partir dessa suspensão inicial que a China define se o bloqueio vale para o país inteiro, para o estado ou só para a região do foco. A China foi o maior comprador de carne de frango brasileira neste ano, com cerca de 10% das vendas de janeiro a setembro, o equivalente a 420 mil toneladas.
Santin disse ainda que poucos países têm esse tipo de acordo e que, para a maioria dos importadores, a restrição tende a ficar limitada à área do foco, num raio de 10 quilômetros. Santa Catarina responde por pouco mais de 20% dos embarques brasileiros de carne de frango, de modo que uma restrição regional teria efeito bem menor.
Do lado do governo, o secretário-substituto de Comércio e Relações Internacionais, Rafael Requião, afirmou que o ministério ainda não recebeu nenhuma comunicação formal de suspensão e que não quer antecipar a reação dos parceiros. "Vamos tentar minimizar as paralisações de comércio. Nossa meta é tranquilizar os países parceiros", disse em coletiva. Segundo ele, as conversas com a China começavam naquele momento, e o governo trabalha com protocolos sanitários que permitem a regionalização do problema.
Na segunda-feira, a ação da MBRF caiu 4,11%, a R$ 18,29. Em Nova York, os recibos de ações da JBS recuaram 1%, a US$ 12,90.
Em relatório, o JPMorgan avaliou que o impacto para as duas empresas tende a ser limitado e temporário, repetindo em menor escala o que ocorreu em 2024. Este é o segundo foco de Newcastle registrado em granjas comerciais no Brasil, depois do caso de julho de 2024 no Rio Grande do Sul. Naquele episódio, segundo o banco, as exportações brasileiras de frango caíram cerca de 100 mil toneladas durante as restrições, o equivalente a aproximadamente um quarto dos embarques de um mês, mas voltaram rapidamente aos níveis anteriores, sem impacto relevante no resultado operacional das companhias.
O banco aponta dois motivos para esperar efeito ainda menor agora: o foco foi identificado rapidamente e vários importadores passaram a adotar protocolos mais flexíveis depois de 2024, restringindo compras apenas de áreas específicas em vez de banir o país inteiro. Santa Catarina responde, na estimativa do JPMorgan, por algo entre 10% e 20% das exportações de frango da MBRF e da operação Seara, da JBS.
O ponto de atenção, para os analistas, continua sendo a reação dos compradores. Em 2024 foi a China que mais afetou o fluxo das exportações brasileiras, mantendo restrições por um período bem mais longo que os demais. O embargo chinês ao produto do Rio Grande do Sul só foi revertido no início deste ano. Japão, União Europeia, México e Arábia Saudita adotaram, naquela ocasião, medidas mais localizadas ou temporárias.
Se você compra frango, ovos ou peru, nada muda: a transmissão da doença se dá por contato entre aves, não pelo consumo, e os produtos com selo de inspeção seguem liberados pelo ministério e pela Cidasc. A confusão entre sanidade animal e segurança do alimento é justamente o que as entidades do setor tentaram desfazer na nota conjunta.
O que vale acompanhar é outra coisa: a resposta de cada país comprador, uma a uma. A decisão mais importante é a da China, que ainda precisa definir se restringe só a região do foco, o estado ou todo o Brasil. Enquanto isso não sai, qualquer estimativa de prejuízo é provisória, e o próprio presidente da ABPA disse ser difícil calcular o tamanho das perdas.
O segundo calendário a observar é o sanitário. O período de incubação da doença é estimado em 21 dias, e o protocolo prevê dois desses períodos, totalizando 42 dias de acompanhamento das granjas monitoradas. Depois disso, segundo Alvarenga, o Brasil poderá voltar a ser considerado livre da doença após 90 dias. O governo já pediu à OMSA a redução desse prazo, mas a mudança ainda não foi implementada. É esse calendário, mais do que a notícia do foco, que vai indicar se o episódio fica restrito ao oeste catarinense ou se cobra um preço maior das exportações.
Quando uma notícia como essa aparece, o que costuma chegar até você primeiro: o risco no prato, que não existe, ou a decisão comercial que realmente está em jogo?
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